Atravessadores de MS se arriscam por tirzepatida sem eficácia
A tirzepatida virou um dos medicamentos do momento em todo o Brasil devido à aplicação para fins estéticos. Ela e a semaglutida são usadas para emagrecimento, e o seu alto custo tem feito pessoas buscarem opções baratas.
Com isso, criminosos têm aproveitado para importar ilegalmente a tirzepatida do Paraguai e trazer ao Brasil, mas a falta de cuidado no transporte pode se tornar um risco à saúde.
As apreensões de medicamentos emagrecedores em Mato Grosso do Sul aumentaram 55% em 2026, de acordo com o BPMRv/PMMS (Batalhão de Polícia Militar Rodoviária, da Polícia Militar de MS). Nem mesmo o veto da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) à importação inibiu os criminosos.
Especialistas alertam que esse medicamento, sem o devido armazenamento, não tem eficácia e pode levar o paciente a ter problemas de saúde no futuro.
O aumento das apreensões de tirzepatida na fronteira não chega a ser surpresa para o BPMRv. Para o comandante do batalhão, tenente-coronel Vinícius de Souza, o crime procura sempre caminhos mais lucrativos.
“Os criminosos vão atuar onde dá dinheiro. E, hoje, o medicamento dá dinheiro. Então, o volume aumentou e, com isso, a nossa fiscalização consegue apreender mais”, avaliou.
A decisão da Anvisa, que proibiu em janeiro de 2026 a venda desse medicamento importado, reforçou o combate à importação ilegal. Com isso, quem é pego com tirzepatida paraguaia pode ser preso por contrabando.
“Como a Anvisa proibiu, o único autorizado no Brasil é o Mounjaro. Todos os outros emagrecedores da mesma composição química são proibidos. Então, como virou proibição, agora é contrabando. A minha equipe, quando apreende, e a autoridade policial, que é o delegado da Polícia Federal, autua em flagrante essa pessoa. Antes dessa regulamentação da Anvisa, era só descaminho”, explicou o tenente-coronel.
Em 2025, o BPMRv apreendeu 1.213 caixas do medicamento. De janeiro de 2026 até agora, foram 1.888, o que representa uma alta de 55%. O comandante alerta que a tirzepatida era transportada sem refrigeração em todos os casos.
“Todas as apreensões estão sem refrigeração. Isso já gera um risco enorme para a pessoa que vai usar. Já vimos solto no porta-malas, em bagagem, acondicionado em caixa ou oculto. Já pegamos dentro do pneu, dentro do compartimento do motor. De todas as formas, a gente já pegou as ampolas; tanto ampola como caneta aconteceram”, detalhou.
Segundo Souza, após o flagrante, os agentes apresentam o suspeito — quando ele é preso — e o produto à Polícia Federal, a quem cabe fazer o descarte da tirzepatida.
Efeitos colaterais
Médico endocrinologista da Unimed Campo Grande, Nelson Passaia explica que, para usar o medicamento, a pessoa deve receber acompanhamento. O especialista explica que é necessário identificar se a aplicação é o tratamento ideal para aquela pessoa.
“O primeiro de tudo é a gente saber se o paciente precisa mesmo da medicação; a grande indicação, claro, é a obesidade. Tem muitos pacientes que às vezes fazem o uso da medicação por um desejo estético de emagrecimento, o que é muito diferente do paciente com o que a gente considera a doença obesidade, o excesso de adiposidade, o excesso de tecido gorduroso, causando outras complicações a longo prazo para esse paciente. Então, o primeiro de tudo é ter indicação da medicação”, detalhou.
Passaia alerta que, no caso da tirzepatida paraguaia, é difícil verificar a qualidade desse produto, principalmente por conta dos insumos usados na fabricação.
“Para a gente tentar entender melhor, sempre faço um comparativo com uma receita de pão. Para a gente fazer o pão, usa farinha, ovo, leite. No caso da tirzepatida, qual é a procedência desses insumos? Será que essa farinha que foi usada para esse pão estava no prazo de validade? Será que era uma farinha que podia ter algum tipo de contaminação, porque tudo isso vai ser levado para dentro do corpo do paciente quando ele realizar as aplicações. Então os insumos, a procedência, a fiscalização desses insumos realmente são o que mais nos preocupa”, pontuou.
O endocrinologista aponta que o medicamento sem procedência conhecida pode causar efeitos colaterais característicos da tirzepatida quando mal administrado, como náuseas e até pancreatite.
Além disso, o uso do medicamento que veio sem refrigeração pode sair de controle, já que o produto perde eficácia se não for armazenado adequadamente. Dessa forma, quando o paciente não vê o efeito desejado e muda a medicação, ele pode ter efeitos colaterais.
“A falta de refrigeração pode causar a perda da potência da medicação, então você vai usar uma medicação que às vezes não sabe se vai ter o efeito desejado. [Vai] aplicar 2,5 ou 5 miligramas da medicação e, às vezes, vai ter um efeito bem menor do que o esperado, e aí começa a aumentar aquela dose, achando que não está tendo um efeito adequado”, explica.
“Quando troca de marca, vem a medicação correta com o efeito correto. Se estava com 10 miligramas de uma medicação que não estava fazendo efeito e aplica 10 miligramas de uma medicação que vai fazer efeito, você tem muito efeito colateral, porque a dose está muito alta para você. Aí você pode ter náusea, vômito, enjoo, dor abdominal, desidratação, às vezes até acabar levando a alguma internação”, conclui o médico.
*Midiamax
